Minha cunhada jogou uma tigela de sopa em mim, e toda a família riu. Eles não sabiam que a mulher que estavam humilhando era..

Família.

Essa palavra.

Ouvi isso tantas vezes durante anos que perdeu o significado.

Ou talvez ele realmente o tivesse.

Isso significava que eu tinha que acordar antes de todo mundo para cozinhar.
Significava que eu tinha que ceder meu quarto quando a Camila vinha me visitar.
Significava que eu tinha que aguentar as humilhações dela quando ela estava tendo um dia ruim.

E Diego…

Sempre do mesmo lado.

"Ela é minha irmã, Lucía. Não exagere."
"Minha mãe está ficando velha, tenha paciência com ela."
"Você é mulher, deveria saber ceder."

Dar?

Ceder tornou-se rotina para mim.

Minha forma de sobreviver.

Toda vez que eu queria dizer alguma coisa, eu engolia as palavras. Porque eu sabia o que viria a seguir: ingrata, problemática, uma mulher má.

Então eu aprendi.

Fique quieto.

Baixar o olhar.

Para me fazer pequeno.

Até hoje.

Hoje foi o aniversário da Camila.

Levantei antes do amanhecer. Cozinhei doze pratos. Doze. Porque ela gosta de ostentar fartura. Porque nada pode faltar quando há convidados. Porque tudo tem que ser perfeito… para ela.
Ao meio-dia, minhas pernas já não respondiam da mesma forma. Mas continuei.

Quando nos sentamos à mesa, ela provou o prato principal.

Costelas agridoces.

Ele mastigou.

Ele franziu a testa.

E ela pousou os talheres com um baque.

"Ficaram horríveis", disse ela, sem baixar a voz. "Nem sequer são doces."

Senti que todos ficaram em silêncio.

Forcei um sorriso.

—Da próxima vez, vou adicionar mais açúcar.

"Da próxima vez?", repetiu ela, arqueando uma sobrancelha. "Hoje é meu aniversário e você vem com essa?"