Eu mal conseguia respirar.
"Papai te leva lá embaixo?", perguntei, com a voz trêmula.
Ela assentiu.
"Às vezes, quando ele sente saudades dela."
Essa reação, de certa forma, piorou as coisas.
Eu deveria ter parado.
Eu deveria ter ligado para o Daniel.
Eu deveria ter saído para espairecer.
Mas...
Ajoelhei-me ao lado do cadeado, com dois grampos de cabelo tremendo nas minhas mãos.
E de alguma forma…
A fechadura abriu com um clique.
Apenas para fins ilustrativos.
O que encontrei no porão não foi aterrorizante, foi de partir o coração.
O cheiro foi a primeira coisa que me atingiu.
Grama velha.
Umidade.
Mofo.
Então fiquei completamente absorta.
E meu medo se dissipou instantaneamente.
Não havia corpo.
Não havia crime.
Nenhuma mulher escondida.
Em vez disso…
O porão parecia um memorial congelado no tempo.
Um sofá velho.
Velas.
Fotografias emolduradas.
Desenhos infantis.
Um cardigã jogado sobre uma cadeira.
Botas femininas encostadas na parede.
Um jogo de chá infantil.
E pilhas de DVDs ao lado de uma televisão antiga.
Parecia menos um depósito…
E como se alguém tivesse tentado desesperadamente preservar uma vida inteira.
Grace sorriu orgulhosamente.
"Mamãe mora aqui."
Eu a observei atentamente.
"O que você quer dizer, querida?"
Ele apontou para a televisão.
"Papai nos trouxe aqui para que pudéssemos ficar com ela."
Emily apertou seu coelho de pelúcia com força.
"Podemos ver a mamãe na TV."
Então Grace acrescentou em voz baixa:
"Às vezes o papai chora, mas ele diz que a mamãe já sabe."
Essa frase partiu meu coração.
Daniel havia transformado seu luto em um cômodo.
Caminhei pelo porão em silêncio.
Não era algo maligno.
Era algo mais triste.
Muito mais triste.
Daniel havia criado um lugar onde sua esposa ainda existia.
Um cômodo onde a dor ainda era palpável.
Um cômodo onde suas filhas acreditavam que sua mãe ainda "vivia".
Então, notei um caderno aberto por perto.