A mulher à beira da estrada vestia uma camiseta desbotada, sandálias gastas e jeans acinzentados pela estrada. Seus cabelos estavam presos de forma torta, o suor escorria pelas têmporas e o cansaço estampava-se em seu rosto como uma marca permanente. Mas não era isso que fazia as mãos de Michael tremerem no volante. Emily segurava dois bebês, envoltos em mantas macias. Gêmeos. Recém-nascidos, ou quase. Seus rostinhos estavam escondidos sob pequenos gorros de tricô, as bochechas coradas. E mesmo do SUV, Michael viu o detalhe que o atingiu como um soco no estômago. Eles tinham os cabelos loiros dela. Aos pés de Emily, havia um saco plástico meio cheio de latas amassadas e garrafas vazias. Sua ex-esposa, aquela a quem ele jurara proteger até o último suspiro, sobrevivia coletando recicláveis à beira de uma estrada rural, carregando duas crianças cuja existência ele sequer conhecia. "Ora, ora, Emily", gritou Ashley pela janela aberta, com a voz doce, quase venenosa. "Revirando o lixo. A gente sempre acaba onde tem que estar, né?" Emily não respondeu. Nem sequer olhou para Ashley. Seu olhar estava fixo em Michael, e a tristeza em seus olhos era tão silenciosa que lhe tirou o fôlego. "Dirija", ordenou Ashley bruscamente. "Não deixe que esse desastre nos afete. E esses bebês? Vamos lá. Com certeza são fruto de uma das suas histórias mirabolantes, não é, Emily?"
As palavras "histórias mirabolantes" abriram uma porta que Michael tentara manter trancada por um ano. Um ano antes, ele estivera parado no hall de entrada de mármore da casa que dividia com Emily. Comprovantes de transferência bancária estavam espalhados sobre a mesa de vidro. Centenas de milhares de dólares, supostamente transferidos por Emily. Fotos borradas dela fazendo check-in em um hotel com um homem que Michael não conhecia. E então, o golpe final: o colar de diamantes de sua mãe, que sumiu do cofre e foi encontrado mais tarde na cômoda de Emily, depois que Ashley sugeriu que ela verificasse seu armário. Emily desabou de joelhos naquela noite. "Michael, eu não fiz nada", implorou. "A Ashley me odeia. Ela está mentindo para você. Por favor, me escute. Eu—" Ele não a deixou terminar. O orgulho pode dar a um homem a ilusão de força, enquanto o faz parecer tolo. E a humilhação adora ser vista. Ele se virou, o maxilar cerrado, o coração ardendo com uma necessidade avassaladora de punir alguém. "Tirem-na da minha casa", ordenou aos seguranças. "E não deixem que ela leve um centavo sequer." Ele nunca ouviu o resto da frase. Nunca perguntou para onde ela tinha ido. Uma buzina soou atrás dele, fazendo-o parar na beira da estrada. Ashley remexeu na bolsa, tirou uma nota de vinte dólares amassada, amassou-a e jogou-a pela janela. "Aqui", disse ela. "Compre leite. Ou qualquer coisa que pessoas como você comprem." A nota caiu na poeira perto das sandálias de Emily. Emily olhou para ela por um instante. Então, olhou para Michael. Não havia ódio em seus olhos.
Um milionário divorciado estava levando sua noiva para casa quando, por acaso, avistou sua ex-esposa sem-teto na rua.